NA ESCURIDÃO
DA MONTANHA
Gostaria de narrar uma história acontecida numa
encarnação que tive. Mais que uma lembrança, ficou
uma grande lição de vida e um grande aprendizado marcado
no meu espírito e no de meus amigos.
Tive uma infância cheia de aventuras e brincadeiras diversas;
éramos um grupo de amigos unidos e sinceros.
A idade e o destino colocou cada um de nós no seu devido caminho,
contudo, sempre que podíamos, nos reuníamos e fazíamos
longos passeios, e nesses momentos relembrávamos nossas façanhas.
Foi numa dessas excursões que aconteceu esta história.
Esse nosso grupo era composto de estudantes de física, química,
espeleologia, geologia, naturalistas e outros simplesmente adeptos à
exploração de trilhas e cavernas.
Tudo planejado, fomos até uma montanha próxima de nossa
cidade, onde havia uma caverna há pouco descoberta. O caminho
até o local era de difícil acesso, mas graças ao
nosso guia chegamos até uma garganta estreita que levava ao centro
da caverna.
Tudo ia bem, quando de repente nosso guia começou a passar mal,
devido ao estresse pelo enorme desgaste físico que ocorre nesse
tipo de aventura. Fizemos tudo o que foi possível para reanimá-lo,
mas subitamente ele teve uma parada cardíaca e o desencarne foi
inevitável.
Foram momentos difíceis, de desespero e angústia, pois
todos nós – apesar de tanta experiência – nos
sentimos impotentes diante do fato ocorrido.
Após alguns minutos, que nos pareceram horas, chegamos à
conclusão que estávamos perdidos e sem saber para que
lado ir. A escuridão era enorme, um verdadeiro labirinto de passagens
estreitas; não sabíamos quanto tempo iríamos demorar
para sair daquela situação e se conseguiríamos
sair, pois tudo foi planejado anteriormente para ficarmos ali um único
dia e não mais que isso.
Alguns começaram a cair num desespero incontrolável: a
angústia e o medo tomou conta de todos, ainda mais por estarmos
levando o corpo de nosso amigo.
Passados dois dias, a comida e a água já haviam acabado,
assim como todas as nossas reservas de carbureto para os lampiões,
só nos restavam as últimas chamas de algumas velas.
Diante do quadro que se apresentava, não havia mais nada a fazer.
Nesse momento nos colocamos em preces de desespero, pois não
víamos mais nada e estávamos ali enterrados no centro
da montanha, vivos, porém perdidos e desgastados, debilitados
e machucados.
Ficamos ali, em preces, rogando a Deus que nos desse um sinal para sairmos
daquele local. De repente um grande silêncio nos abateu e dentro
daquele silêncio profundo todos nós pudemos ouvir um tilintar
de água caindo em uma possível poça. Envolvidos
pela esperança, nos guiamos até o local, apoiando-nos
uns nos outros e tateando paredes geladas; tudo em silêncio. Éramos
levados puramente pela audição e pelo instinto de sobrevivência:
sentíamos que uma força maior nos guiava. Assim, chegamos
ao local e pudemos saciar nossa sede e ali escutamos um outro barulho
( que lindo era o som...); os ares uivando ao longe entre as pedras.
Seguindo esse som pudemos ver ao longe – estávamos há
quase três dias na escuridão – um pequeno raio de
luz. A felicidade era enorme, e sem perder a esperança em Nosso
Deus Maior, achamos a saída. Abraços, choros de alegria
e tristeza, porque ali perdemos um companheiro e quase todas as nossas
vidas.
Desse episódio, ficou em nosso espírito
a grande lição gravada pelo resto de nossas vidas: dar
mais valor e atenção aos nossos cinco sentidos; dar mais
valor à fé e à esperança em Deus e em Jesus,
e nunca abandoná-las; dar mais valor à ligação
com nossos anjos protetores que nos intuíram para seguirmos o
caminho certo e com certeza foi isso que nos levou para a vida novamente.
Hoje, todos nós, os oito amigos, “vivos em espírito
eterno que somos”, sempre que possível nos reunimos em
espírito e prece para agradecer a Deus pela oportunidade que
nos foi dada naquela ocasião; foi dali em diante que nossas vidas
mudaram e começamos uma reforma íntima total.
Que essa história sirva de exemplo a todos. Ela mostra o verdadeiro
sentido da fé e da esperança em Nosso Deus e que não
devemos nunca abandoná-la com a certeza que sempre seremos guiados
por Jesus e amparados pelos nossos irmãos espirituais, em qualquer
circunstância.
Muita paz.
ANACLETO RIBEIRO
Carbureto
........ = pedra que acrescida de água em
recipiente apropriado forma um gás utilizado para acender lanternas
do tipo lampião.
Geologia .......... =
ciência cujo objeto é o estudo da origem, da formação
e das sucessivas transformações do globo terrestre, bem
como da evolução do seu mundo orgânico.
Espeleologia ... =
exploração e estudo das cavidades naturais
como grutas, cavernas, rios subterrâneos, etc.